Daniel Blume, que também é membro do PEN Clube do Brasil, da Academia Internacional de Cultura e da Academia de Letras e Música do Brasil, lançou o livro “Delações” numa live em agosto deste ano (Foto/Divulgação)

 

O poeta, ensaísta e membro da Academia Ludovicense de Letras, Antonio Ailton, acaba de publicar uma profunda análise do livro “Delações”, lançado este ano, de forma virtual, pelo advogado, procurador geral do Estado e escritor Daniel Blume. O livro está à venda na livraria do Advogado e na sede da AMEI no São Luís Shopping; e nas plataformas digitais do Kindle / Amazon e no site da Editora Helvetia.

Com o título “Desvelamentos, Delações”, o poeta abre seu coração e todo seu conhecimento literário para uma análise avaliativa da mais recente produção de Daniel Blume que já lançou os livros “Inicial”, “Penal”, “Resposta ao Terno”, entre outros e que já foi traduzido para o espanhol, francês e italiano. Segue na íntegra a análise de Antonio Ailton:

 

Desvelamentos, Delações

“Há enormes abismos entre uma peça delatória e o resultado do processo de uma escrita poética que prima pelos alumbramentos, pela exaltação do próprio ato poético, pelas epifanias, feridas, afetos e manifestações da alma – o texto chamado lírico. Seus regimes, fóruns e propósitos são completamente díspares. Porém, como tudo no reino da linguagem, uma pode ser evocada ou mesmo convocada para uma relação com a outra, assim como podemos encontrar elos metafóricos, simbólicos ou alegóricos entre expressões, entre a delação e a poesia. Foi isso o que fez o poeta Daniel Blume em seu novo livro de poemas, cujo título é, justamente, Delações (Helvetia Éditions, 2020).

Já sabemos que Blume transita entre esses dois universos, o jurídico e o poético, ou o do direito e o da experiência lírica, cuja satisfação íntima e empenho para um ou outro lado não nos cabe julgar. Tampouco entendermos esses campos como coisas dicotômicas que precisem estar cindidas em si, como bem nos mostra a liquefação ou o coleamento de sentidos dos seus títulos publicados até agora, com exceção do Inicial (AML, 2009). Seus outros títulos, Penal (AML, 2015) e Resposta ao Terno (Belas Artes, 2018) fazem-se sobre esse toque ambidestro, coleante, que alcança um e outro lado de tais dedicações.

Obviamente o livro poderia ter outro título. Mas a escolha enriquece bastante seus sentidos e ressonâncias. Não apenas porque se localiza nesse espaço transicional das experiências entre o cidadão e sua voz poética, o sujeito lírico, e que não deixa o enunciador desaparecer completamente em meio a essa voz, colocando-a como delatora, mas também porque imprime ao texto certo traço de racionalidade irônica, duas coisas que vão percorrer o livro da capa ao final, sempre marcando uma peculiaridade já muito perceptível nesse poeta: a sua capacidade de apresentar uma ternura lírica, descambando hora para a sutileza erótica, hora para o humour, associada à objetivação crítica do poema, com sua economia de palavras e suas incisões precisas. 

O ponto crucial dessa ironia delatória é que, em última instância, o delator está entregando a si mesmo, e, portanto, não busca justiça, mas justeza. O fórum da justiça está, pois, alheio a esse processo, porque nessa delação não há crime pessoal ou social, mas a “negociação” subliminar de desvelamentos e revelações expressivas: dos poetas, e o desvelamento de sua relação sensual, estésica, com o poema, o ato poemático ou sua língua; de personagens, cambiando entre a ressonância do existir cotidiano e suas relações, e a observação sarcástica, quase caricata de sujeitos encontráveis no nosso dia a dia; dos lugares que habitamos e que reciprocamente nos habitam; e dos corpos, em que a paixão, a libido e a música se tornam os pilares da “com-junção”  – sendo esses, aliás, os quatro pontos em que Blume divide e focaliza seu livro.

Nessa condição cumulativa de participante-testemunha, o poeta pode pôr em dúvida o próprio relato – sujeito que entrega o jogo, mas que pode estar escamoteando o jogo, que é disso que se trata, da pragmática desse jogo da linguagem em que a persona está presente-ausente, está ali, mas precisa manter essa consciência avaliativa das condições, do outro, do objeto da delação. E só uma escrita que se mostra e se reflete ao mesmo tempo que constrói seus sentidos e processos pode dar conta desse espaço intermediário entre o eu, o autor, e o mim, a imagem projetada do poeta, não exatamente a do “fingidor”, mas a do delator que propõe uma mediação, uma localização “entre” condições e experiências possíveis. Isso porque a própria ironia viabiliza um acesso à referencialidade do sujeito cidadão, biográfico ou empírico.

Blume já deixou claro que sua seara é o poema breve, ao estilo do chamado poema-síntese, curto ou curtíssimo, seguindo influxos formais do epigrama e/ou do haicai. Mas em Delações é perceptível que a linha mais epigramática, de origem latina, da qual o poeta se aproximava, agora busca a forma mais específica do haicai. Ele conserva, por vezes, o dito chistoso e agudo característico do epigrama, mas o atenua com aquela brandura temperada do haicai japonês.

É uma poética do mínimo que, do Modernismo para cá, é tida como eficaz e adequada à correria cotidiana (vide Oswald, os concretistas, Affonso Ávila e Leminski), atingindo o máximo de leitores possíveis, tanto mais quanto sua linguagem seja simples (e isto nosso poeta realiza muito bem), podendo resultar num alto condensare, a condensação poética, conforme pregado por Ezra Pound. Obviamente isso nem sempre é verdade, pode tornar-se apenas mais um dos engodos com que lidamos nas poéticas contemporâneas, já que isso depende de todo um trabalho complexo, e nem sempre o falar pouco, o pensamentear ou o encontrar frases felizes significa atingir alta densidade poética. Nosso poeta, no entanto, achou com muita propriedade sua senda, vejamos poemas como:

 

OBSTÁCULO

O sol derrete

ou forja homens

depois daquela montanha.

 

RESETE

Um rio se desatou de mim

quando recomecei

da página zero.

 

Ou estes lances simples, porém certeiros, porque vívidos e completos:

INSONE

 

Lis/

boa [à] noite.

 

PESSOA

A casa lisboeta das janelas

sem cortinas

é feita

da própria pessoa

de Fernando.

 

Dois poemas que evocam um espaço de vivência e experiências poetizantes caros a Daniel Blume: Portugal.  Mas para além das questões formais, das afetividades fulgurantes e reminiscências epifânicas, e além de certa relação voluptuosamente confessa com a matéria do poema ou com gesto da escrita – nos quais ressoam o imaginário erótico confidenciado, a própria língua, a “cruzada de páginas” da leitora, a transfiguração da simples tela do eletrônico em corpo que pode ser “tocado”, “teclado” (poemas Língua, Leitora, Inconfidência  e outros), nessa bela sinestesia ou “liquidez” de corpos, linguagens e coisas – um tênue mas persistente rastilho que irá unir os 187 poemas do livro é aquele toque (traço e tom) irônico, o qual irá acentuar-se principalmente na terceira parte do livro, como foi já anunciado acima, sobre cuja temática Blume mostra  muita propriedade: as temáticas sociais. E, nesse sentido, por vezes até contra si mesmo, o poeta, todo poeta, talvez jamais possa eximir-se de ser um pleno delator.

Nesse aspecto, o sujeito poético chega inclusive ao tom satírico, abrindo um caminho para a semicaricatura naturalista, como perceptível nos poemas O Professor, Asco, A víbora, e quase todos da terceira parte do livro (aliás, a de poemas mais longos), culminando com Boca Mole. Porém, o poema talvez mais representativo da força irônica do livro seja Antídoto n’Antítese, no qual o poeta recorre a Maquiavel, e sua obra O Príncipe, para tecer uma pragmática do comportamento pelo foco “negativo”, isto é, tecendo uma crítica do como agir nas relações de (micro)poder e nos trânsitos sociais  afirmando o seu contrário. Ou não. Um poema “dialético”, já que a tese pode ser sua antítese: “Escrúpulos não são práticos / seja objetivo, descarte-os. / (…) Há promessas que não devem / ser cumpridas/ e lucro no caos, / pode ter dito alguém / de gravata em Brasília / (…) Não tenha um calcanhar / de Aquiles / na sua Guerra de Troia”.   

Para evocar um pensador recorrente em Daniel Blume, o polonês Zygmunt Bauman, nestes tempos de instantâneos e da liquidez das verdades instituídas – ou seja, de microverdades, em si mesmas relativas – os julgamentos críticos tornam-se perigosos. O fato é que o poeta em primeiro lugar, o autor, deve, no mínimo, exercer sua consciência e ter seus próprios parâmetros críticos, e isso só vem com muita leitura, mais leitura, e mais tempo. O que podemos dizer é que Blume é um poeta que, como tantos de nós, está nesse difícil caminho da linguagem, mas já possui seu dizer autêntico e independência de modelos, instituindo diálogos.

Delações é visivelmente o livro não apenas mais poeticamente consistente, mas também mais aprimorado que os anteriores, sem diminuir o valor de cada um daqueles, que cada experiência de escrita tem, ao seu momento e ao tempo. O leitor que se demora em seus lampejos pode descobrir clarões. Isso me atinge, e essa confluência verdadeira, mesmo que nem sempre desprovida de tensionamentos, creio que seja a primeira e fundamental alegria para quem escreve”.

Gostou? Compartilhe!
Share on Pinterest
Compartilhe com um amigo(a)










Enviar