São Luís recebe exposição que propõe a retomada da dignidade de povos pretos e indígenas

Nedilson Machado
Artista manauara Keila-Sankofa: “Direito à Memória é um projeto artístico que, desde 2019, realiza um enfrentamento contra as combinações e projetos de apagamento que se perpetuam sistematicamente” (Fotos/Divulgação)

 

Recontar as histórias de pessoas pretas e indígenas registradas sob a ótica violenta do século XIX é o coração da exposição “Costura de Cores Ancestrais – A RETOMADA”. Integrante do projeto artístico “Direito à Memória”, a mostra — vinda diretamente de Manaus — estreia nesta quarta-feira (25), no Chão SLZ, localizado no Centro Histórico de São Luís.

Idealizada e dirigida pela artista manauara Keila-Sankofa, a exposição surge do incômodo com as imagens da expedição fotográfica “Thayer”, realizada na Amazônia no século XIX. Na época, os registros tinham cunho racista e desumanizador. Agora, o projeto busca uma “edição da memória”, remodelando esse passado para devolver o nome, a cultura e a humanidade a esses indivíduos.

“Nosso trabalho é plantar e cultivar, recriar essas imagens e intervir na paisagem da cidade retratando esses indivíduos sociais por nome, cultura, origem, desejos e constituição familiar — tudo aquilo que o processo da história colonial propositalmente apagou”, destaca Keila-Sankofa. Segundo a artista, as teorias racistas científicas daquele período ainda ecoam no imaginário atual, tornando a intervenção poética uma ferramenta urgente de reparação.

Transmutação e Liberdade
A mostra utiliza a transmutação da imagem para construir novos imaginários, transformando “cativos presos em fotografias” em seres livres. As obras-bandeiras expostas provam a existência e a importância social dessas pessoas.

Após passar por locais emblemáticos em Manaus, como o Largo de São Sebastião e o Museu da Amazônia (MUSA), São Luís é a primeira cidade fora do Amazonas a receber o projeto. “É uma satisfação enorme estar em terras maranhenses. Queremos ocupar a Amazônia inteira com a voz dessas pessoas contando suas próprias histórias”, celebra a artista.

Programação e Formação
A abertura oficial acontece às 19h desta quarta-feira (25). Além da mostra, o público poderá participar de atividades formativas gratuitas:

  • Mesa de Debate: “Chão e Direito à Memória”, com Keila-Sankofa e Dinho Araújo. Quinta-feira (26), às 19h.
  • Minicurso: “Memória interrompida: arquivos coloniais e reparação histórica”, ministrado pela historiadora Patrícia Melo. Dias 2 e 3 de abril, das 15h às 18h.

A exposição foi contemplada pela PNAB 2024 (Fomento à Execução de Ações Culturais de Artes) e conta com o apoio do Governo do Estado do Amazonas e do Governo Federal.

Compartilhe este artigo