Visita à Fazenda Mousinho mostrou técnicas de fabricação, aproveitamento de resíduos e iniciativas de valorização dos destilados locais. Na foto abaixo, Sérgio Damiani, produtor da cachaça Baronesa, em demonstração na fazenda Mousinho, em Vargem Grande (Fotos/Divulgação)
Conhecer a produção de cachaça artesanal é percorrer parte da história, da economia e dos saberes tradicionais do Maranhão. Essa foi a proposta da primeira edição da Rota Ancestral, realizada na Fábrica da Cachaça Baronesa, instalada na Fazenda Mousinho, em Vargem Grande, no Vale do Rio Munim. O roteiro reuniu turismo, conhecimento técnico, gastronomia e degustação para apresentar as etapas de fabricação da bebida.
Promovida pelo Sindicato das Indústrias de Bebidas, Refrigerantes, Água Mineral e Aguardente do Maranhão (Sindibebidas-MA) e a ZEST Casa, com apoio institucional da Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (FIEMA) e do Serviço Social da Indústria (SESI-MA), a iniciativa busca ampliar a visibilidade dos destilados produzidos no estado. A organização prevê novas edições em outras destilarias maranhenses.
Fundadora da ZEST Casa, Thaynara Viegas destaca que a proposta vai além da degustação. “Conhecer a origem da bebida, as pessoas envolvidas na produção e as técnicas utilizadas permite valorizar o trabalho dos produtores e compreender a cachaça como parte do patrimônio cultural e gastronômico do Maranhão”, avalia.
A Fazenda Mousinho possui 24 hectares de plantação de cana-de-açúcar, matéria-prima da Cachaça Baronesa. Durante a visita, os participantes conheceram as etapas que vão do cultivo da cana ao envelhecimento da bebida, passando pela moagem, fermentação e destilação. A apresentação foi conduzida por Lucas Araújo, engenheiro químico e mestre alambiqueiro, e Sérgio Damiani, produtor da marca.
O processo utiliza leveduras silvestres presentes na própria cana durante a fermentação e alambiques de cobre na destilação. Os visitantes também conheceram os controles de temperatura, concentração de açúcar e tempo de fermentação, variáveis que influenciam as características da bebida.
A Baronesa produz cachaças brancas e envelhecidas em diferentes madeiras, além da linha Extra Premium 5 Madeiras. O produto é um blend envelhecido por mais de três anos em cinco tipos de madeira: carvalho francês, grápia, cabreúva, angico-vermelho e amburana. Em sua primeira participação no 15º Concurso Anual e Nacional New Spirits, em 2026, a cachaça recebeu medalha de prata na categoria Cachaças Blends de Madeiras.
Para Lucas Araújo, a qualidade da bebida depende do domínio técnico e do respeito à matéria-prima. “A elaboração de uma cachaça de qualidade exige controle técnico, atenção aos detalhes e respeito às características da matéria-prima. Cada decisão, da fermentação à destilação, interfere no resultado final”, afirma.
A visita também permitiu conhecer o aproveitamento dos resíduos da fabricação. Na fábrica, parte do bagaço da cana é utilizada como combustível na caldeira, enquanto o restante retorna ao campo como adubo orgânico após a decomposição. A vinhaça, resíduo líquido da produção, passa por resfriamento e diluição antes de ser aplicada na plantação, conforme as práticas apresentadas durante o roteiro.
Para Sérgio Damiani, mostrar as etapas da produção ajuda a aproximar o consumidor da cachaça artesanal. “É importante mostrar o trabalho realizado no campo e na fábrica, além dos cuidados que definem as características de cada bebida. Essa experiência ajuda o consumidor a reconhecer o valor da produção maranhense”, afirma.
O contato com o processo produtivo também permite compreender como as técnicas e o envelhecimento influenciam as características sensoriais da cachaça, avalia Cleuson Moisés, enófilo e participante da visita. “A experiência permite compreender o cuidado envolvido em cada etapa da produção e perceber como a matéria-prima, as técnicas de fabricação e o envelhecimento influenciam o perfil sensorial da bebida. Iniciativas como essa contribuem para valorizar os produtores maranhenses e ampliar o reconhecimento dos destilados locais”, afirma.
FORMALIZAÇÃO E VALORIZAÇÃO DO SETOR – A valorização dos destilados maranhenses também passa pela formalização dos fabricantes, incentivada pela FIEMA. Entre os resultados obtidos pelo setor está o registro de 19 marcas maranhenses de unidades produtoras de cachaça, tiquira e gin, ampliando as oportunidades de inserção no mercado formal e de agregação de valor aos produtos. Atualmente, o Sindibebidas-MA reúne cerca de 40 empresas de diferentes áreas da indústria de bebidas.




