Em São Luís, 86% das famílias estão endividadas, aponta Fecomércio-MA

Nedilson Machado
Pesquisa da Fecomércio-MA mostra alta de 24% em 12 meses; inadimplência avança em ritmo mais moderado e permanece abaixo dos níveis da pandemia (Ilustração)

 

O orçamento das famílias de São Luís voltou a entrar no radar de atenção. O endividamento dos lares ludovicenses alcançou 86% em julho de 2026, o maior percentual registrado desde junho de 2021, quando o indicador chegou a 86,2%. Os dados são da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), realizada pela Fecomércio-MA em parceria com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

O resultado representa uma alta de 24% em relação a julho de 2025, quando 69,3% das famílias estavam endividadas. Na comparação com janeiro deste ano, quando o índice era de 73,9%, o crescimento acumulado em seis meses chega a 16%.

O movimento chama atenção porque recoloca o indicador próximo dos níveis observados no período mais crítico da pandemia. O pico histórico da série ocorreu em março de 2021, quando 91,1% das famílias de São Luís estavam endividadas.

Dívida cresce, mas inadimplência ainda está distante da pandemia

O cenário, porém, apresenta uma diferença importante em relação àquele período. Embora mais famílias estejam assumindo compromissos financeiros, a inadimplência não avançou na mesma velocidade.

Em julho, 28,4% das famílias tinham contas em atraso, contra 27,3% no mesmo mês de 2025 — uma alta de aproximadamente 4%. Durante o auge da pandemia, esse percentual chegou a 47,9%.

Também caiu a parcela de consumidores que afirmam não ter condições de quitar suas dívidas: 4,9% atualmente, contra 9,1% registrados em março de 2021.

Para o presidente da Fecomércio-MA, Maurício Feijó, os números indicam que o crédito continua sendo utilizado pelas famílias, mas o ritmo de crescimento das dívidas merece atenção.

“Os dados mostram que mais famílias estão recorrendo ao crédito, mas a parcela que não consegue honrar seus compromissos permanece significativamente abaixo do nível observado durante a pandemia.”

Segundo Feijó, o principal ponto de atenção está na velocidade de expansão do endividamento e na capacidade de a renda acompanhar esse movimento.

Inflação, emprego e renda entram na conta

A pressão sobre o orçamento doméstico ocorre em um ambiente que combina inflação, mercado de trabalho menos dinâmico e juros ainda elevados.

Em São Luís, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,87% em julho, acima da média nacional de 4,44%.

Ao mesmo tempo, a taxa de desocupação na Grande São Luís passou de 6,6% no quarto trimestre de 2025 para 7,6% no primeiro trimestre de 2026. A subutilização da força de trabalho também aumentou, de 12% para 13,4%.

Outro fator estrutural é a informalidade. No Maranhão, 57,6% da população ocupada estava na informalidade, segundo o IBGE, o maior percentual entre os estados brasileiros.

Cartão de crédito lidera as dívidas

O cartão de crédito continua sendo o principal instrumento de endividamento. Ele aparece em 82% das famílias endividadas de São Luís e em 83,7% entre aquelas com renda de até dez salários mínimos.

O custo do dinheiro também permanece como fator de pressão. Em agosto, o Banco Central reduziu a meta da Selic de 14,25% para 14% ao ano, a partir de 6 de agosto. Apesar do início da flexibilização monetária, o crédito ainda permanece caro e os efeitos de uma eventual melhora nas condições de financiamento tendem a chegar de forma gradual ao orçamento das famílias.

Outro número que merece atenção é o comprometimento da renda: em julho, as famílias endividadas de São Luís destinavam, em média, 29,5% dos rendimentos ao pagamento de dívidas — praticamente um terço da renda.

Comércio segue reagindo

Mesmo diante do aumento do endividamento, o comércio maranhense mantém sinais positivos.

De acordo com a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC/IBGE), o volume de vendas do varejo no Maranhão cresceu 3,1% em junho, na comparação com o mesmo mês de 2025, acumulando alta de 2% no primeiro semestre.

O dado sugere que parte do aumento do crédito continua ajudando a sustentar o consumo. Ao mesmo tempo, a combinação de dívida crescente e orçamento mais comprometido recomenda cautela para os próximos meses.

O retrato atual, portanto, é de mais famílias utilizando crédito, mas ainda sem repetir os níveis de inadimplência registrados durante a pandemia. O sinal amarelo está justamente na velocidade com que as dívidas estão crescendo.

Para as famílias, o desafio será equilibrar consumo, crédito e capacidade de pagamento. Para o comércio, acompanhar a evolução da renda e do endividamento será fundamental para entender até onde o atual ciclo de consumo poderá avançar.

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